Sou uma pessoa de poucas palavras e muitas entrelinhas..

domingo, 14 de abril de 2013

O Cadáver




O cadáver da barata ornava o primeiro degrau da escadaria. Brilhava, âmbar, sob a luz do Sol. Lindo e inerte, recolhido a um canto, fora do alcance da sola de qualquer sapato. Parou a admirá-lo, o cadáver. E assim ficou por tempo indefinido, a se perguntar por que não estava, aquele cadáver de barata, com as patas e a barriga para cima, como jazem todos os cadáveres de barata. Não. Ostentava, aquele, suas belas e brilhantes asas.
E delas, as asas, irradiavam-se furta-cores raios que lhe despertavam os sentidos e os mais diversos pensamentos. E teve, por alguns momentos, durante aquele tempo indefinido, a sensação de que ela, a barata, se movia. Tão languidamente, quanto os raios refratados numa autoestrada banhada por um sol de um meio-dia incandescente.
Piscou algumas vezes a fim de se livrar de tal miragem. E a barata voltou a ser cadáver.
Subiu, então, a escadaria interminável. E ao último degrau só lhe restou, desperto e entediado, ralhar com a empregada, o seu desleixo com a vassoura.      




segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tão próximo, o Inferno...





Aquela luz, não a alcançava. Nunca. Ele caminhava e caminhava em sua direção e ela se afastava e se afastava. E suas pernas pesavam e pesavam. E aquele caminho cada vez mais íngreme, acidentado. E correntes invisíveis o prendiam e o puxavam para trás e para baixo. E o chão sob os seus pés ardia e queimava. E ele continuava e continuava. E deixava pelo caminho seus destroços, seus pedaços. E ele continuava e desesperava. E continuava e continuava. A luz cada vez mais ínfima, distante, inatingível, indiferente. E ele continuava e se arrastava. E suas costas lhe doíam e arqueavam e nos ombros lhe pesavam todas as pedras deste mundo e de outros mundos. E ele prosseguia e rastejava e desfigurava a própria face e dilacerava o próprio peito e rasgava a própria carne.

E insistia e insistia e insistia…




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domingo, 29 de maio de 2011

O Trem


Acomodou-se no camarote. De bagagem levava apenas uma maleta de mão. Estava realmente cansada. Física e emocionalmente. Ansiava pelo chacoalhar do trem, só queria fechar os olhos e descansar. Rezava para que ninguém mais ocupasse o aposento. Não queria dividir sua dor, não podia.
Lembrou-se da última viagem que fizera ao lado dele. E dela. Olhou para o banco vazio à sua frente. Podia vê-la ali sentada, sorridente. Ele , ao seu lado, embora segurasse a sua mão, dava a outra toda a sua atenção. Ciúme sempre sentiu mas tentava ser compreensiva, paciente. As pessoas mais chegadas diziam que seria bobagem tentar afastá-los e, afinal de contas, seria uma maldade fazer intrigas entre dois irmãos. O que não sabiam ou não entendiam era a influência nefasta que ela exercia sobre ele. Tolos que não enxergam!
Rebeca, sua fascinante cunhada que já havia recusado mais de uma dezena de pedidos de casamento, dos mais influentes e cobiçados cavalheiros da província. Sua beleza exótica e radiante já causara até duelos e mortes. E ela parecia se divertir muito com tudo isso.
Um homem parou à porta do camarote e a tirou de seus pensamentos. Cumprimentou-a , cordialmente, tirando o chapéu. Sentou-se à sua frente tentando não desabar com seu pesado corpanzil. Ela o observou e lamentou profundamente a sua presença. O homem ajustou os pequenos óculos redondos e sorriu, amável. Ela retribuiu com má vontade.
O trem, finalmente, se pôs em movimento depois de um longo apito que mais parecia um lamento. Sua mente voltou novamente ao passado. Um passado recente, apenas algumas semanas atrás. Olhava pela janela, via passar as montanhas com os picos nevados que tanto a encantaram, a sua vida toda. Vida. Que vida teria agora?
Chovia muito quando chegou em casa. A sombrinha não dera conta de tanta água e vento forte. O vestido encharcado e pesado lhe irritava, subiu as escadarias com dificuldade já soltando os cabelos molhados, louca para se livrar de toda aquela mortalha. No corredor já ouviu os gemidos, os gritos histéricos de Rebeca, suas gargalhadas. Não teve coragem de abrir a porta do próprio quarto.
Sentiu novamente a mesma repulsa, o mesmo ódio, a mesma fúria. Flagrou-se apertando o próprio chapéu entre as mãos, apertando o maxilar, rangendo os dentes. Tratou de se acalmar, não estava sozinha e aquele homem não lhe tirava os olhos.
Não lhe restava mais nada. Nem sua dignidade. Curiosamente, não havia chorado em nenhum momento. Nenhum momento. Abriu a janela e respirou o ar gelado que entrava. Tentou decifrar os cheiros que sentia. Então, lhe ocorreu. Quanto tempo levaria para que descobrissem os corpos?
Foi quando o simpático cavalheiro a chamou pelo nome e mostrou-lhe seu distintivo.



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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sem saída




“Olhava para aquela tela totalmente negra. Não vislumbrava seus limites, parecia infinita. De repente, surge um quadrado branco, um pouco para a esquerda. Tudo é linear, como num antigo desenho animado. Eu estou no quadrado. Olho para mim. Estou tateando suas arestas tentando sair. Mas, de repente, o quadrado está cheio de areia. Fico preso, totalmente imóvel. Somos, então, dois indivíduos. O “eu” que está preso no quadrado de areia e o “eu” que está do lado de fora, apenas olhando. E é o que está do lado de fora quem mais sente angústia. Não só pela aflitiva imobilidade do outro mas porque sabia que mesmo que o outro conseguisse se libertar, não teria para aonde ir.”



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terça-feira, 15 de março de 2011

Almas Etiquetadas



Almas Etiquetadas.

Exército de mochileiros zumbis
Marcham carregando mesmices
Mas nenhuma santa esquisitice
Empesteando o ar com seu tédio
Acorrentados uns aos outros
Caminham unidos num bloco compacto
Impenetrável, jamais indecifrável
Pois são óbvios, tão óbvios em suas mesmices
Por vezes, se mordem, vociferam injúrias
Atracam-se, disputam o topo do bloco
Mas logo relevam, se acalman
Nivelam
E voltam a marchar num coro ordinário
Uníssono




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terça-feira, 1 de março de 2011

Espelho d'água...






Diáfana
Difusa
Dispersa



Imagem
Inversa


Diluída
Dissolvida


Etérea
Eterna
...em sua brevidade




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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Feixe de Luz




Teu hálito quente
Na minha nuca
Denuncia tua presença
Etérea
Na noite escura

…meu doce espectro





So close to me…




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